11 agosto 2018

Votar em Lula e não ser de direita torna você obrigatoriamente petista ou comunista?


Não sei se você que está lendo estas linhas já passou por isso, mas se não passou, poderá em algum momento passar. Postar um comentário ou compartilhar algo ligado à Lula (ex-presidente da república, atualmente preso político em Curitiba, e também presidenciável) nas redes sociais poderá, em algum momento, ser classificado como petista ou comunista.

Eu tenho recebido algumas enxovalhadas desse tipo de comentários nas redes sociais que participo, principalmente no Facebook. Quando eu digo que voto em Lula ou compartilho algo em referência à ele, dizem que sou comunista e que rezo na cartilha Marxista, ou coisa desse tipo. E tentam de todo jeito me passar "informações" anti-comunista ou anti-marxista.

Quando não fazem isso, trazem "informações" de Cuba ou de Venezuela, ou ainda de países aonde o sistema comunista impera ou imperou com prejuízos daquele naquelas nacionalidades. 

Por alguma razão, eles, tão inteligentes, não conseguem trazer quaisquer informações de ações comunistas no Brasil, país de minha nacionalidade e do qual nunca saí por nenhum motivo, até os dias atuais. Nem de férias, infelizmente. Algo que pretendo fazer pelos próximos anos, tão logo a situação financeira melhore ao ponto de curtir um pouco, com minha família, terras estranhas à nossa realidade.

Embora eu veja uma ou outra coisa desses falatórios dos que me acusam sem saber qual minha ideologia política nunca me abalei com esse tipo de comportamento e fico às vezes pensando: esse pessoal que fala essas besteiras, o que tem na mente?

Não se sabe bem por qual razão mas eles ou elas vivem com um medo tremendo de que em algum momento possamos perder nossos espaços para regimes que não chegaram à entrar em nosso país, como é o caso do comunismo.

Geralmente quem tem esse tipo de "mentalidade" são militantes de direita ligados à esse ou aquele partido, que há anos não ganha legitimamente uma eleição, que tem usado de golpes, ao longo dos anos para perpetuarem-se no poder, ou grupos mas especialmente ligados à Jair Messias Bolsonaro, candidato à presidente da República, deputado em fim de carreira. Ou, também aqueles que, desconhecendo nossa história, são pseudos cientistas políticos, que acreditam saber de tudo, estudando pelas vistas dos memes e citações, imagens ou videozinhos do youtube ou facebook.

De um simples relance, baseados no que os manipuladores de mídias, contratados por políticos inescrupulosos dizem, eles conhecem todos os regimes políticos de outros países, tendo á sua frente um computador ou Smartphone que lhes informam à partir das redes sociais, tudo o que eles precisam saber em apenas um minuto ou dois de "estudos".

Pegar um livro para ler e por sua vez, estudar, é algo que esses militantes de redes sociais não tem tempo, haja vista a multidão de artigos curtos, post's, comentários que é preciso verem e lerem para "se atualizarem". Livros são produtos que eles relegaram ao passado e esqueceram, propositadamente, em troca das facilidades encontradas, curtas, na internet.

Julgar, principalmente, é uma das práticas mais fáceis e bizarras nos dias de hoje. E assim eles dizem que qualquer pessoa que não votar em seu candidato, não importando se ele é do PSL, MDB, PSDB, REDE ou quaisquer outros partidos são, obrigatoriamente Petistas ou Comunistas.

Daí vem algumas citações que levam-nos à rir dos comentários encontrados nas redes que esses "importantes senhores ou senhoras" fazem.

Mas, e se o cara estiver filiado ao Partido Verde, por exemplo, e não opta por votar no candidato que o partido dele defende, defendendo por sua vez, a intenção de votar no preso político, Luiz Inácio Lula da Silva, ele é petista, é comunista ou apenas uma pessoa que não concorda com o ponto de vista da maioria de sua legenda?

E se o cara, filiado ao PSL, não concordar com o ponto de vista de seu candidato, ou candidatos, resolve votar no candidato do PT, que é de esquerda, ele também é petista e comunista?

E se o eleitor antes, acreditava em Bolsonaro, e depois das falas dele, começou à pensar diferente, não acreditando mais nele, escolhendo outro candidato para votar, neste caso o  Lula ou alguém ligado ao PT, ele é o quê? Além do mais, quando foi que Lula falou ser comunista? Ou ainda, quando foi que o Partido dos Trabalhadores declarou-se comunista? Ou quando foi que vimos o comunismo declarar-se petista? Essa informação consta em algum documento da legenda petista ou comunista?

Não estou aqui dizendo que o comunismo (ou os comunistas) seja um sistema ruim ou que não presta. Longe de mim. Afinal de contas, o que eu estudei até os dias de hoje com relação a eles tem uma ótica de vista totalmente contrária das acusações contrárias.

É muito fácil dizer que o comunismo não presta e que os comunistas são petistas só pelo fato de se odiar cegamente, à quem ou o que desconhece.

Para dizer que o PT é comunista eles tem que mostrar algum documento em que os líderes dessa legenda tenham se afirmado comunistas ou que os comunistas tenham-se igualmente afirmado-se petistas. Se tem, até então, não vi e nem li. Mas, gostaria que me mostrassem os acusadores aonde foi que acharam essa ligação?

O Renato Janine trouxe online uma publicação datada de agosto de 2012, que achei importante trazer pra cá, de maneira à que possamos entender, colocando os pingos nos is. Essa nota foi publicada no portal CGN (Acesse aqui). Confira seu artigo abaixo.
O PT NÃO É COMUNISTA - De vez em quando, leio em blogs ou mesmo em cartas que recebo enquanto colunista deste jornal ataques aos "comunistas" do PT. Ora, é importante esclarecer algumas coisas. Todos têm o direito de divergir do Partido dos Trabalhadores e do comunismo. Mas é errado confundir um com o outro. Melhor aclarar alguns pontos, para que os adversários do PT ou do comunismo possam criticá-los sem incorrer nessa confusão.
O PT não é ou foi comunista, nem por seu programa nem por sua história.
Vamos ao programa ou, se quiserem, aos ideais. O princípio de todo partido ou militante comunista é a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Quer dizer que só a sociedade pode ser dona de fábricas, fazendas, empresas. Já residências, carros, roupas e hortas para uso pessoal ou familiar não precisariam ser expropriadas de seus proprietários privados. A casa em que eu moro não é "meio de produção". Menos ainda, minha roupa. Mesmo a horta, em vários países comunistas, ficou em mãos particulares. Seja como for, o ponto de partida do comunismo é: a propriedade privada dos meios de produção - fazendas, fábricas - é injusta e, também, ineficiente. Deve ser suprimida. Sem essa tese, não há comunismo.
Um parêntese: até o presente, esse projeto não funcionou. Para Marx, a questão não era moral, mas econômica. A propriedade privada acabaria se mostrando ineficiente. Seria superada por uma forma superior de propriedade, a coletiva. Ora, até hoje a propriedade privada se mostrou mais produtiva. E ninguém conseguiu mostrar na prática (ou teorizar) o que seria a propriedade "social" dos meios de produção. Houve, sim, propriedade estatal deles. Mas Marx era claríssimo: o Estado tinha que ser abolido. Nunca propôs ampliá-lo. Nem reduzi-lo. Ela ia mais longe do que os próprios liberais: queria suprimir o Estado. Era o contrário do que fizeram os Estados comunistas, que reforçaram a polícia e controles de toda ordem. Eles suprimiram a propriedade privada, mas não o Estado: criaram um monstro policial que Marx jamais aceitaria.
Pois bem, o PT namorou em seus inícios a ideia de um socialismo vago, mas nunca se bateu pela abolição da propriedade privada dos meios de produção. Daí que, nos seus primórdios, fosse até acusado de ser uma armação contra a "verdadeira" esquerda, a comunista. Dizia-se que Lula seria um ingênuo, ou um agente da CIA aqui infiltrado. Além disso, o PT nasce de um inovador movimento sindical; ora, Lênin fora áspero na crítica ao "sindicalismo", que padeceria de uma ilusão reformista, querendo melhores salários em lugar da revolução. Tínhamos um abismo entre o projeto petista e o comunista. Finalmente, o lado libertário do PT - o fato de reunir descontentes com a cultura dominante, machista, racista etc. - desagradava a quem achava que a contradição decisiva da sociedade seria o conflito do capital com o trabalho. Havia marxistas no PT, talvez ainda os haja, mas sempre foram minoria.
Daí vêm duas consequências curiosas e paradoxais quanto ao comunismo. Para ele, o fim da propriedade privada não é só um projeto. É uma certeza científica. O marxismo pretende ser a ciência das relações humanas. É científico que um dia virá o socialismo. Disso decorre que, sendo uma ciência, o marxismo no poder não admite discordância. O dissidente é um errado. E por que autorizaríamos os errados a falar? Eles só atrasarão a rota da história... Seria mais econômico e melhor, para a humanidade, calá-los. Daí, o caráter não democrático dos regimes comunistas (é por isso que, na democracia, a liberdade de expressão significa que podemos erra, renunciamos à certeza). E disso decorre, também, que os marxistas fora do poder não têm pressa. Um dia, chegará o comunismo. No poder, enfatizam que o socialismo é uma necessidade histórica. Fora do poder, enfatizam que a história não precisa ser apressada. Dão-se bem com a adversidade. Derrotados, sabiam ser serenos, para usar a virtude que mostravam em tempos nefastos: a história lhes daria, um dia, razão.
É paradoxal, não é? A mesma convicção de que o marxismo seja uma ciência leva os comunistas, no poder, a não tolerar a oposição, e fora do poder a fazer tudo o que é acordo, mesmo dos mais espúrios, a aguentar qualquer derrota, a esperar. Ora, é digno de nota que o PT nunca aceitou o pressuposto do marxismo como ciência. Por isso mesmo, também recusou suas consequências. Nunca reprimiu divergências ao feitio comunista. E sempre teve pressa (exceto, talvez, depois de chegar à Presidência). Não foi à toa que, entre petistas e comunistas, as relações nunca tenham sido fáceis. A queda do Partido Comunista tradicional, o "partidão", acaba coincidindo com a ascensão do PT. Não restou espaço ao PCB. Mudou de nome, abriu mão do fim da propriedade privada, manteve uma excelente retórica, foi para a direita.
Em suma, há muito a criticar ou a elogiar no PT, mas será errado criticá-lo (ou elogiá-lo) por ser comunista.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.