02 setembro 2015

Desabafo de um Policial Civil de Pernambuco sobre a real situação da categoria, sob a gestão de Paulo Câmara


Mentir ou distorcer verdades, é como destilar veneno com letras. É o equivalente de se misturar a grafia das formas com o sentido das coisas, é o que resulta ao esfriar o cadinho, possui uma beleza quase onírica, mas é tão mortífero quanto o veneno de uma víbora.

Neste pacto, alicerçado na solidez de um castelo de cartas, nossa parte é a conta. Pagamos com suor e sangue. Somos tratados com o mesmo respeito que tem o óleo que faz girar uma máquina: nenhuma. Quando tudo funciona bem, mérito da eficiência pura da máquina; quando as engrenagens tem dificuldades em girar, culpa do óleo que não fez seu papel à contento.

Misture 11.500 litros de sangue (resultado de mais de 2.300 mortos em Pernambuco neste ano), com gelo, água de coco, peixes, crustáceos, cafezinhos, e tenha em suas mãos uma equação perversa. Acrescente 120 milhões de reais oferecidos em contratos com a Odebrecht; junte com os aumentos ofertados à cargos comissionados, à secretaria da fazenda, ao TCE e ao TJPE. Junte tudo num mesmo saco, e a equação perversa começa à exalar um fedor pútrido.

Não, este sangue derramado nunca esteve em nossas mãos. Dele não temos a menor culpa. A responsabilidade pertence à outros. Pertence aos idealizadores e empreendedores de uma política de segurança pública baseada em fachadas e aparências, desprovida do conteúdo que lhe forneceria subsistência. Uma política que transformou em insalubre nossos locais de trabalho; que fez dos nossos coletes balísticos em meras capas sem validade; que transformou nossas diárias e horas extras em promessas e mitos.

Fazer cumprir a lei e servir à sociedade é nossa missão primordial, e temos orgulho disto. Mas nenhuma instituição, no mundo, é capaz de ser eficiente com apenas 40% do efetivo. Perdemos nossa capacidade de investigar e elucidar crimes, não por nossa culpa. Essa conta pertence à outro que insiste em se eximir de sua responsabilidade.

Mas no final de tudo resta-nos uma culpa verdadeira: somos culpados de fazer cumprir a lei, e temos orgulho disto também.

André Dick Policial Civil de Pernambuco.