12 outubro 2014

Uma heroína em minha vida

Hoje, em todos os lugares do Brasil estamos a comemorar mais do que o dia das crianças, mas antes de mais nada, ao meu ver, o dia da vida e da esperança de cada um, nos olhos infantis. Para quem tem filhos certamente é mais do que uma data, é acima de tudo um instante de reencontro no braço e no abraço de quem se ama. 

Algumas crianças é claro que não crescem nunca.

Hoje também é data de festividade da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Para quem é devoto é mais do que alegria, é festa da mãe de Jesus, que por escala é a mãe de cada um, espiritualmente falando.

Hoje para alguns é um momento sagrado e maravilhoso. Um encontro entre o nascer pelos olhos de uma criança e a ternura pela mãe de Jesus, o Cristo de Deus, nosso pai maior.

Hoje para mim é um momento de lembrar de uma pessoa que me é acima de tudo especial. A exatos oitenta anos, no dia doze de mil novecentos e trinta, nasceu no interior do estado de Pernambuco, numa cidade chamada de Água Preta, distrito de Palmares, na época uma criança que tinha por missão o amor, e a descoberta das coisas da vida. Ela tinha que aprender a doar esse amor sem saber nem mesmo como proceder.

Sua infância sofrida no interior de um pequeno sítio, aonde o pai plantava fumo, ela descobre coisas boas mais também algumas coisas nem tão agradáveis assim. Perante tanta dificuldade, a sua maior foi a de se conformar com o analfabetismo que lhe acompanhou durante toda sua vida. Logo na infância tem a infelicidade de perder sua mãe, ficando então com seu pai e mais três irmãos, sendo ela a mais velha de todas. Aos seus treze anos, perdeu ainda seu pai, tendo por sua tutela o término de criação de seus outros três irmãos. A sua mais apegada era a mais nova. Tentando arrancar força e se apegando a muita coragem ela segue para a cidade de Barreiros, em busca de emprego para manter a si mesma e aos seus irmãos. Logo cedo, casou-se com um belo rapaz da redondeza que infelizmente não lhe garantindo uma boa sobrevivência fez com que seus irmãos fossem aos poucos se evadindo pelos caminhos que a vida lhes mostrou. No afã de ter que cuidar de alguns, não foi cem por cento compreendida. Seu irmão mais velho sai de sua presença, na esperança de dias melhores, sua irmão mais velha casa-se, ficando apenas sob seus olhares sua irmã mais nova. Logo esta também tende a se enamorar, vindo a casar-se também.

Ela, então mãe de sua primeira filha, sai de um casamento turbulento e segue sua vida em busca do melhor mais uma vez. Casa-se novamente, com um outro senhor, que por infelicidade lhe bate muito. Mesmo assim, ela não desiste. Desposa-se deste tentando viver sozinha. Logo, encontra um senhor, também analfabeto, mas acima de tudo trabalhador, com quem constroe uma família e com este tem dez filhos, restando ao todo cinco filhos, uma vez que a mortalidade naquela época era uma infeliz constante. Já com a primeira filha do seu primeiro casamento somam-se seis filhos, ao todo. O esposo desta vez era trabalhador, mas como muitos homens da localidade, muito mulherengo. Mesmo assim, a união dos dois se estendeu por vários anos. Neste ínterim ela vê sua filha mais velha seguir com destino a grande capital Brasileira, São Paulo, como todo nordestino, em busca de dias melhores. Restam-lhe ainda os cinco filhos, tendo então quatro meninas e apenas um menino. A estes todo o entusiasmo que lhe vinha a alma era vê-los indo para a escola, para terem leitura e conhecimento do que a vida é com uma nova visão.

Esta mulher que muito amou viveu ainda longos anos mantendo uma vida familiar ao menos louvável. Até que não suportando mais as traições de seu esposo, bem como as noitadas entre a bebida e as mulheres, deixa-o e busca viver sozinha. Neste período da vida três de quatro de suas filhas já se encontram casadas, duas delas a morar na capital de Pernambuco, uma em São Paulo, e outra em Barreiros onde moram. Sua inseparável irmã mais nova, também esta casada com um distinto senhor que lhe dá uma vida confortável. O que por sua vez lhe sossega o peito em saber que sua irmã amada esta bem, graças a Deus.

Com muito esforço ela está vendo um longo caminho já percorrido, entre sofrer e aprender. Crescer e desenvolver.

Suas filhas lhe dão netos que hoje se encontram espalhados pelos cantos do Brasil.

Uma de suas filhas encontra-se numa batalha íntima de sua descoberta sexual. Ainda assim, nascem por esta, três filhos, sendo este mesmo que vos escreve o mais velho. E quase tendo um destino longe de seus familiares, uma vez que com a idade desta estava prestes a ser entregue a uma outra família para ser por sua vez adotado.

Nesta parte aqui me é permitido entrar para ver uma verdadeira prova de amor.
Estando prestes  á ser doado para outra família, essa mãe e avó ao mesmo tempo, pega-me na maternidade e diz estas palavras que me emocionam todas as vezes que eu lembro da forma que me contaram: ele é sangue do meu sangue vai ser criado por mim! Desde então, ela com aquele amor que lhe é peculiar, me adota como filho direto e eu fui criado como filho direto, tendo direito a registro e tudo o mais que um filho natural tem. Devo dizer que desde então eu fui criado como irmão de meus tios, bem como irmão de minha mãe biológica. Parece algo estranho, mas tenho certeza de que muitas estórias iguais a minha se espalham por aí, sem muito conhecimento popular. Para mim, está aqui mais do que provado que o amor, não tem limites nem barreiras. E assim, fui criado, até que ela, com todo aquele jeito de falar, que lhe é peculiar, me conta a verdade de meu nascimento, sendo-me revelado então que sou filho de quem apenas eu acreditava ser mais uma de minhas irmãs. Por incrível que isso pareça não foi algo a me perturbar, muito pelo contrário, parece que alguma coisa já estava pronta para que eu aceitasse tudo isso quanto ao meu destino.

Esta mesma mulher, que completa mais um ano de vida neste dia 12 de Outubro de 2010, estaria hoje com oitenta anos de existência em nosso meio, foi chamada para ingressar na vida maior a mais de dez anos, no dia 22 de Outubro de 2000. Sendo acima de tudo para mim, mais que um exemplo a ser seguido. Uma verdadeira bandeira de amor, garra, dedicação. Uma verdadeira heroína aos meus olhos.

Ao relatar estas linhas confesso que uma saudade boa e gostosa me bate ao peito e uma lágrima de agradecimento teima em querer cair de meu peito. Olho para os céus em minha mente e a encontro como se estivesse a sorrir para mim, devolvendo-me eflúvios de amor e carinho do alto. Neste momento encontro a força de encarar mais um dia com aquela mesma gratidão e felicidade que eu via em seu olhar.

Dois anos após sua mudança desta para a vida maior eu rabisquei algumas linhas, que se tornou uma canção de carinho para esta minha heroína singular. Por alguns instantes, essa é para mim uma canção de ninar para meu coração, as vezes abalado pelas lidas diárias.

Eu queria aprender tocar violão
Pra dizer versos numa canção
Pra falar do amor, da saudade que eu sinto.
E da falta que você me faz

Eu queria rever os teus olhos serenos
Teu carinho, tuas mãos teus afagos.
Tua voz tão suave guiando meus passos
Me ensinando o que a vida ensinou

Obrigado a você, obrigado minha mãe.
Obrigado por tudo que fez
Que Jesus te ilumine esse novo caminho
Logo, logo contigo estarei.

Parabéns à você Severina Soares de Oliveira (1930-2000)

Que neste dia 12 de Outubro possamos sim, comemorar o nascer da vida nos olhos de uma criança, e ainda, reencontrar a mesma vida que renasce todos os dias nos olhos de nossos pais, amigos, familiares, mães, avós, pais e avôs. Se você puder, abrace a pessoa que sentes um carinho em especial após ler esta mensagem. Tenho certeza de que assim, minha mãe, uma heroína em minha vida, ficará mais feliz com um pequeno gesto, mas de grande vali para quem ama.

Muita paz, sempre em todos os sentidos sempre!

Essa mensagem foi elaborada por mim em Curitiba-Pr, no dia 12 de Outubro de 2010.